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Cid, Elmano e o “Pelé do governismo”

O governador Elmano de Freitas (PT), a pretexto de gracejar, disse que não se pergunta ao “Pelé” em que posição e quando irá jogar, mas que cabe ao craque decidir. A menção, como se sabe, não era a qualquer atleta de futeb0l, mas ao senador Cid Gomes (PSB), aquilatado como estrela do time nessa comparação. Ressalvado o exagero do petista, a brincadeira comporta uma dúvida: se Cid é de fato o destaque dentro do campo governista, por que não escalá-lo para titular?

Ora, não faz sentido que Pelé, para ficar no exemplo explorado por Elmano, esteja na condição de vice de um nome que não se apresente à altura de suas habilidades (e nem falo de Elmano). Se o campeonato se mostra difícil e adversário, competitivo, o melhor não seria começar a partida já com a formação mais forte?

Ou é isso, ou as sucessivas declarações elogiosas endereçadas ao ex-governador do Estado têm o objetivo de atraí-lo para a chapa — não necessariamente na vice, mas no Senado, onde cumpre bem seu papel ao emprestar capital para a composição, sem sombrear o chefe do Abolição, como, aliás, o próprio Cid chegou a advertir que Camilo Santana (PT) faria. Logo, a lógica por trás do tratamento de Cid como um “Pelé da política” revela mais o receio do governismo de que o jogador sobralense não atue no torneio — ou pior, acabe se bandeando para as fileiras do oponente, mesmo que não na arquibancada da Meruoca.

Síndico, não senador

Mas é curiosa a resistência de Cid a concorrer a novo mandato no Senado, sonho de consumo de dez entre dez políticos do Estado, com ou sem competência para figurar na casa legislativa. Que o peessebista desgosta de Brasília, isso não há novidade. É possível vê-lo mais feliz subindo num palanque na zona rural de Quixelô do que na tribuna parlamentar. Ocorre que essa recusa não é uma rejeição ao poder. Pelo contrário, Cid quer ser síndico — não senador.

Explico. O síndico cuida de tudo no condomínio, das tubulações de gás ao sistema de drenagem do jardim, passando pela limpeza da piscina e a pacificação das querelas dos seus condôminos. Pois bem. Ex-prefeito, ex-deputado e ex-governador, o Ferreira Gomes é hoje o gestor de um condomínio político que, se tudo der certo, deve reassumir o controle do Governo e de boa parte das prefeituras cearenses em 2030. Esses são os planos do senador, isto é, liderar um time com talento político de sobra, sendo mais como Zagallo do que Pelé.

Por Henrique Araújo, n’O Povo

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