A recuperação da imagem de Ciro Gomes no Ceará
Quando se olha uma pesquisa, todo mundo presta atenção nas intenções de voto, quem está na frente e quem está atrás. É natural e óbvio, não adianta analista brigar contra isso. Seria como o comentarista de futebol ao chamar atenção para a posse de bola, as chances criadas e acabar por minimizar outros números: os gols marcados pelos times.
Não significa que outras informações não sejam interessantes. Ao se abordar um jogo ainda por ser jogado, outros dados permitem perceber motivações dos eleitores. Eventualmente, projetar os movimentos por vir.
Potencial de voto e rejeição, por exemplo, possibilitam compreender a imagem dos políticos perante os eleitores. Na pesquisa Quaest, considero ser este um dos dados mais relevantes. Camilo Santana (PT) aparece com 57% dos eleitores que dizem conhecer e poder votar nele. Ciro Gomes (PSDB) tem 55%. A rejeição a Camilo, quem conhece e não votaria, é de 34%. De Ciro, 33%. Percentuais, a rigor, iguais, na margem de erro.
Os desempenhos me chamam atenção. As eleições de 2022 terminaram com Ciro derrotado de forma amarga, na esfera nacional e na estadual, de forma sem precedentes. A eleição de 2024 reafirmou a tendência. O então pedetista mal apareceu na campanha do aliado, José Sarto. Havia avaliação, certa ou errada, de que ele não ajudaria. No segundo turno, ele trabalhou por André Fernandes (PL), conforme revelou na época o colega Guilherme Gonsalves, vizinho da coluna na página ao lado. Porém, também se julgou que Ciro ajudaria mais sem aparecer.
Em ambas as situações, Camilo foi o grande vitorioso. Consolidou-se como principal líder da política cearense e se projetou nacionalmente. O que explica, agora, ambos aparecerem de modo tão semelhante na pesquisa?
CIRO, O CEARÁ E O BOLSONARISMO
A resposta passa por compreender como Ciro se desgastou. Em 2018, com polarização e tudo, ele foi mais votado no Ceará do que Jair Bolsonaro e muito mais do que o petista Fernando Haddad.
Ciro nunca deixou de ter críticas ao PT, mas foi ministro de Lula até 2006 e apoiou petistas em 2010 e 2014. Em 2016, ele defendeu, em caso de risco de “prisão arbitrária” de Lula, “sequestrar” o petista e levar a uma embaixada.
Em 2018, as coisas mudaram. Fala-se de insatisfação pela ação do PT para evitar o apoio de partidos a ele. Passada a eleição, disse que não faria campanha pelo PT “nunca mais”.
Em 2019, tornou-se contundente crítico do PT e também de Bolsonaro. Esperava ocupar espaço entre um e outro. No ambiente extremado, o lugar se mostrou ínfimo. Mesmo no Ceará, onde não conseguiu nem o segundo lugar em município algum. E, nacionalmente, ficou abaixo de Simone Tebet.
Como explicar a recuperação de Ciro, líder em todas as pesquisas no Ceará? Um aspecto é o fato de ele voltar a estar presente no Ceará. A rotina de receber vereador, irmão de ex-prefeito, suplente de deputado era algo de um passado distante.
Além disso, no Ceará, ele não é adversário nem de Lula nem de Bolsonaro. O terceiro aspecto é a aproximação com o bolsonarismo. A despeito de resistências, ele agora está de um dos lados da polarização e é abraçado apesar de tanto já ter criticado os novos aliados.
Por Erico Firmo, n’O Povo



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