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Votos não nascem nos “cofres”, nascem na confiança do eleitor

Nas noites em que o sono demora a chegar, quem carrega mais de cinquenta anos de vida pública costuma recorrer ao que aprendeu desde cedo na política: olhar os números. Porque, na política, discursos podem ser fabricados, versões podem ser montadas, mas os números raramente mentem.

Foi justamente ao olhar os números que me surgiu uma pergunta simples: quem é, politicamente, Moses Rodrigues para sequer cogitar sentar-se à mesa do chamado alto escalão da política cearense?

Voltemos a 2010.

Naquele ano, tive a ousadia de lançar minha candidatura a deputado federal pelo então PRB. Fui praticamente sozinho, sem o apoio de muitos amigos com quem construí uma trajetória ao longo de décadas.

Do outro lado, formou-se uma verdadeira frente política. Ressuscitaram uma candidatura já encerrada, a do então deputado federal Padre Zé Linhares, que havia anunciado que não disputaria a reeleição. Para fortalecer o projeto, trouxeram para a campanha o então prefeito de Sobral, Leônidas Cristino, com parte significativa da estrutura política do município.

Também se posicionou contra minha candidatura o então deputado estadual Ivo Gomes.

Faltava alguém naquela mesa.

E foi ali que ocorreu um gesto que jamais esquecerei. O então governador Cid Gomes, em plena reunião com lideranças com quem cresci politicamente, afirmou que, caso eu fosse candidato, não escolheria lado entre mim e Padre Zé. Mesmo sendo governador e em sua própria terra, não pediria votos para nenhum dos dois.

Saí dali consciente de que enfrentava uma batalha praticamente impossível.

Segui adiante com apenas um vereador e alguns poucos amigos. Sem recursos, sem estrutura, apenas com coragem e entusiasmo.

Ao final da eleição, recebi 22.456 votos do povo sobralense, enquanto a poderosa campanha do candidato apoiado pela estrutura política mais forte alcançou 32.298 votos. Guardo, até hoje, eterna gratidão ao povo da minha terra.

Mas retomo a pergunta inicial: quem é Moses Rodrigues politicamente?

Voltemos, mais uma vez, aos números porque eles contam uma história bem diferente da propaganda.

Em 2014, Moses Rodrigues disputou contra Leônidas Cristino em Sobral. Havia, naquele momento, dois fatores a seu favor: o longo período sem o ex-prefeito disputar eleição para deputado federal e uma robusta estrutura eleitoral, apoiada por uma igreja e uma universidade.

Resultado:
Moses Rodrigues: 30.020 votos
Leônidas Cristino: 23.935 votos

A partir daí, porém, começa um fenômeno curioso. Em 2018, novo confronto em Sobral:

Leônidas Cristino: 29.543 votos
Moses Rodrigues: 21.169 votos

Em 2022, mesmo com um eleitorado maior e uma campanha mais robusta financeiramente:
Leônidas Cristino: 21.933 votos
Moses Rodrigues: 19.867 votos

Ou seja, eleição após eleição, observa-se algo que qualquer analista político percebe com facilidade: quanto maior a estrutura econômica da campanha, menor a votação.

Isso revela um princípio essencial da política: votos não nascem nos “cofres”, nascem na confiança do eleitor.

Diante desses números, surge uma pergunta inevitável, ainda que muitos prefiram evitá-la: de onde nasce a ilusão de que um candidato com trajetória eleitoral declinante e sem serviços estruturantes prestados ao Estado do Ceará possa sequer cogitar representar os cearenses no Senado da República?

Na política, narrativas podem ser criadas, mas os números continuam sendo o juiz mais implacável da realidade.

Por Oman Carneiro

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